Sérgio Oliveira, o cangaço universal de Azol

DO novo caminho do cangaço se faz a partir de uma avenida Paulista cinzenta, numa tarde de inverno típica de São Paulo. Nuvens, concreto, o vidro dos prédios e o tom do laranja (uma cor difícil para arte) traçam uma linha no coração financeiro do Brasil sobre o asfalto, a partir da região do Paraíso à Consolação. Tudo começa de um ponto, diria Kandinski – pintor cuja obra está sendo exposta na região central de São Paulo. Então era preciso descer as ruas que levam ao Pacaembu até à residência, cuja hera sem sinais algum de verde trama sobre sobre a fachada. O fotógrafo Paulo Otero exibia um leve ar de ansiedade por conhecer o quartel general dos Virgulinos. A designer Carol Oliveira, sempre elegante e muito bonita, nos recebe. Em poucos instantes, estávamos numa sala em que o mundo de Lampião ganha leitura universal entre mobiliário de design contemporâneo. Mais alguns instantes, Sérgio Oliveira desce um lance de escadas e nos cumprimenta. A história tem um novo ponto: Sérgio Oliveira é arte de Azol. A lente da câmera de Otero mira em direção ao pai, ao menos na arte, do novo Lampião. Sem perder nada do repertório mitológico. Não existe aparente intenção de reescrever ou apagar rastros históricos do cangaço. Como na indústria do cinema, os elementos ganham mais força e dimensões. É pop na melhor expressão do sentido.

Formando em cinema e artes gráficas, Sérgio Oliveira já atuou como publicitário, chegou a dirigir filmes e hoje cria imagens arrebatadoras, por enquanto em duas dimensões, a partir do universo de Lampião e Maria Bonita. Se as imagens em preto e branco da época retratam um casal forte e controverso unido a um bando guiado por um líder esteta e com fama de sanguinário, as telas com o grifo Azol são coloridas e alegres. Padre Cícero, o mandacaru, as carcaças dos bichos castigados pela seca convergem em formas fragmentadas. Não se sabe por onde visualizar uma obra de Azol: se do centro ou das extremidades. Ao coletar as imagens em mente, tem-se o sentido de sequência, como num filme. A boa notícia para os potiguares é que a obra de Azol será motivo de exposição, agendada para o segundo semestre, no Solar Bela Vista. A disposição das obra e as intervenções pensadas, sob a curadoria de Ângela Almeida e aos cuidados de Dodora Guedes, devem ajudar a percepção do público potiguar sobre um trabalho que tem despertado o olhar por onde tem sido exposto. Trata-se de um grande presente à cidade de Natal. Ao invés de escolher uma galeria num grande centro cultural, Sérgio e Carol decidiram montar a primeira mostra individual em solo potiguar. Mas precisamente nos arredores por onde viveu Câmara Cascudo.

O solar Bela Vista fica muito perto também do Colégio Salesiano, localizado na Ribeira, onde Sérgio estudou antes de se mudar para Porto Alegre. Aos 17 anos, o adolescente que tinha por hábito desenhar na contracapa de cadernos se transferiu para o Rio Grande do Sul a convite do irmão Nelson Rocha Jr. – levado a cuidar dos negócios da família na região Sul. Sérgio e Nelson tinham uma diferença de idade de 10 anos. Mas eram profundamente unidos pela música e cinema. Estagiário do Grupo Guararapes, Sérgio estava sempre atento ao olhar do irmão sobre as artes visuais. Uma história de fascínio fraternal que explica o fato de o jovem Azol ter chegado a se matricular em curso de fotografia por correspondência e realizar o desejo de cursar cinema e design gráfico em Miami. Foi na América que Sérgio conheceu Carol Emerenciano (Oliveira), com quem viria a casar, em cerimônia e festa realizadas em Natal, e com quem divide o lar, a alegria de acompanhar o crescimento das duas filhas e compartilha as andanças e traçados dos desenhos do Virgulinos, vislumbrando a paisagem de São Paulo. O DNA de administração empresarial reconhecido da família Rocha, conhecida pelo grupo Riachuelo – não tira a crença de Azol sobre a vocação para a arte. A administração da carreira do artista está nas mãos da libriana Carol. “Eu depreendo com facilidade energia para pintar um quadro, mas teria dificuldade e me exigiria mais esforço caso eu resolvesse gerir um negócio”, diz Sérgio, revelando, mais do que uma ironia, uma lógica sobre habilidades muito preciosas em qualquer organização empresarial. “Carol é minha maior fã. Ela é observadora, tem senso estético apurado e talento comercial”, diz. A estratégia da dupla sobre os caminhos do novo cangaço tem um mapa próprio e transnacional. Enquanto Natal está na rota da primeira mostra individual, as obras de Azol devem constar em exibições coletivas, até dezembro, em galerias de Nova York.

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PAIXÃO PELO UNIVERSO DE LAMPIÃO

Vestido com camiseta preta, calça e boots em tons terrosos e com pontas dos dedos manchadas por tons de diferentes tintas, Sérgio apresenta ar tranquilo. Os olhos verdes, por momentos, parecem buscar imagens de um passado e ao mesmo tempo se fixa com doçura sobre o semblante da companheira. Enquanto Carol pondera sobre o quanto o grupo de Lampião ganhou em símbolos estéticos a partir da chegada de Maria Bonita, Azol parece um Lampião apaixonado. Em contraponto ao marido, Carol tem voz suave e fala pausada. Ela usa roupas de tons claros ao falar próximo a uma tela inacabada, na qual Azol imprime vigor e bravura cromática. Na obra, como em quase todos os trabalhos da série, as cores do Nordeste afugentam o teor trágico e violento do controverso Lampião. Sobram o poder de um movimento popular, carregado de simbolismo e rebeldia. Visionário e consciente da sede mundial por novas imagens, Azol revela um desejo de atualizar a fruição. Os Virgulinos devem chegar em Natal, por exemplo, em versão 3D. Os potiguares devem conferir, além das pinturas, instalações e esculturas. O cangaço deve virar uma exposição pop aos moldes das celebradas mostras que têm levado legiões de novos apreciadores de arte aos museus ao redor do mundo. “A minha ideia é democratizar. É oferecer uma mostra de qualidade aos natalenses”, confessa.

O traço e as formas do trabalho de Azol revelam, de forma muito fragmentada, o interesse do artista pelo expressionismo alemão e a arte de mestres como Pollock e Picasso. As cores e a justaposição perfeita das figuras podem ter, todavia, influência mais familiar. Nelson Rocha – pai de Sérgio – se dedicou durante anos ao setor de camisaria do Grupo Guararapes. As coloridas camisas da linha Pool – um dos cases da Riachuelo – passavam pelo aval de Nelson. Como se sabe, uma boa camisa é aquela que tem perfeita harmonia entre colarinho, punhos, cavas e ombros. Talvez por isso, Sérgio sinta-se mais à vontade a opinar sobre o trabalho da filha Maria Paula – estudante de moda. E revela orgulho sobre a trajetória da sobrinha Helô Rocha – uma das mais promissoras entre as estilistas hoje no line up da São Paulo Fashion Week. Assim como Azol, Helô trata com manejo temas brasileiros. Sergio e Carol comungam da certeza de que todo movimento em torno de redescoberta da brasilidade faz parte de um momento, está ligado ao que se chama de “inconsciente coletivo”.

14 / Novo Jornal / Natal, Domingo, 19 de Julho de 2015 ▶ Lifestyle

augusto bezerril Do Novo Jornal

Fotos : Paulo Otero
2017-08-15T21:33:48+00:00 May 10th, 2016|Artes, Pinturas|